MPB bem temperada com Vitor Ramil e o Marcos Suzano
April 26, 2008 by admin
Filed under Música, entretenimento
O gaúcho Vitor Ramil e o carioca Marcos Suzano fizeram um encontro musical no Teatro Alterosa. A Dupla mostrou as canções do disco Satolep sambatown, com participação da cantora Kátia B.
Walter Sebastião
Pesquisa de sonoridades e estética do frio são elementos da parceria entre Marcos Suzano e Vitor Ramil
Música brasileira sem estereótipos. É o que propõe o gaúcho Vitor Ramil e o carioca Marcos Suzano no disco Satolep sambatown, que vai ser lançado com show do duo quarta (dia 16), no Teatro Alterosa. Ramil, há mais de duas décadas, cria canções que sintetizam temas regionais do Sul do Brasil, rock inglês e MPB. Suzano, por sua vez, é conhecido mundialmente como pandeirista e, nos últimos anos, dedica-se a pesquisas com percussão acústica e eletrônica. Juntos, eles desenvolvem trabalho cuja tônica é a mescla de raízes e estéticas distintas, sem compromisso com os formatos tradicionais, que quer ser trama de contrastes: canção e experimentação, intimismo e extroversão, atmosferas frias e quentes. A cantora Katia B., também afeita à mesma perspectiva, é a convidada da dupla.
“É violão com cordas de aço e percussão forte, somados para criar música sutil e com texturas”, explica Vitor Ramil, não só autor das composições que estão no espetáculo como o articulador da projeto. Canções que destaca: Que horas não são?, Não é céu, Invento, vendo nelas tradução dos sonhos da dupla. Elogia o colega de palco: “Suzano, além de grande instrumentista, é criador arrojado”. O percussionista retribui as considerações do parceiro: “Vitor é um tremendo cantor, tem voz bonita e sabe bem como combinar letras e harmonias”.
A parceria surgiu em 2007, quando Ramil convidou Suzano para participar de uma faixa em seu disco. “Começamos a tocar sem compromisso e rolou uma sonoridade surpreendente, forte. Que, rapidamente, foi longe”, recorda o convidado. O trabalho virou show e disco. “Suzano é inquieto, gosta de mergulhar no desconhecido. Sabia que seria bom parceiro para experimentação em busca de algo diferente”, conta Ramil. O encontro dos músicos se deu em momento que vinham radicalizando suas estéticas. O percussionista com pesquisas eletrônicas como forma de se manter no mercado e interessado em novos sons – “é trabalho com sonoridades, filtros, não samplers de batidas, o que acho presepada”. E assim criou “pandeiro envenenado”, na definição de Ramil.
Vitor Ramil andava mergulhado em reflexões, inclusive por meio de textos, sobre o que seria a brasilidade de alguém do Sul do Brasil. Incomodava a ele tanto a ênfase na tropicalidade festiva quanto dogmas dos tradicionalistas de sua terra natal, que estabeleciam o que a música gaúcha tinha de ser. “Tenho interesse por imagens do regionalismo, mas não compromisso com formatações conservadoras. Gosto de experimentações”, conta. Considera que idéias e sentimentos semelhantes movem as criações do parceiro, dono de música que “não fica presa a referências limitadoras do pandeiro”. O que também vale críticas, ao carioca, de tradicionalistas, observa Ramil. “Foram estas coisas que fizeram o nosso encontro dar certo”, afirma.
“Os brasileiros são muito criativos, têm personalidade e assinatura própria”
Marcos Suzano tem 45 anos e nasceu no Rio de Janeiro. Ficou famoso tocando pandeiro em vários países e com vários artistas de diferentes estilos. Criou método para o instrumento e, com alunos de suas oficinas, uma orquestra de pandeiros. É um respeitado percussionista, atuando hoje com instrumentos acústicos e eletrônicos. Para quem quiser conhecer sua música, ele recomenda audição de Sobre todas as coisas (de Zizi Possi), Olho de peixe (parceria com Lenine), Mobile e Eu falso da minha vida o que quiser (com Paulinho Moska) e os CDs solos Flash e Sambatown, além do novo disco com Ramil. “Neles estão o meu modo de ver a percussão: é ritmo, pesquisa de timbres, dinâmica e densidade”, explica.
O artista conta que não é simples carreira solo de instrumentista no Brasil. “No Japão, ouve-se música para ampliar conhecimentos; no Brasil, a gente tem que fazer dançar. É muito ultrapassado”, critica. “Falta instrução e cultura da aceitação de vários estilos, o que impede melhor compreensão da música e obriga você a, todo dia, ter de marretar rochas”, afirma. A maior qualidade dos percussionistas brasileiros? “São ritmicamente muito criativos, têm personalidade e assinatura própria. Misturam ritual, o moderno, o que é de outro país e criam algo novo. Como a batida do funk carioca, que não existe em nenhum lugar do mundo. Acho bom não estarem presos a um estilo, mas é também perigoso, porque às vezes a pessoa pode ficar perdida”. Dá par ficar rico só como instrumentista? “De espírito, sim. Vivo momento muito feliz”, responde. Anuncia para este ano mais um disco: Atarasmii.
“O meu dia-a-dia é mais voltado para a literatura do que para a música”
Vitor Ramil tem 46 anos e nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul. É violonista, cantor, compositor e escritor. Começou a carreira adolescente e, aos 18 anos, gravou seu primeiro disco, Estrela, influenciado pelo que ouvia então: Egberto Gismonti, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Chico Buarque. O fato de morar perto da fronteira com o Uruguai e a Argentina responde pelo gosto por milongas e tangos. “Como no Sul sempre se ouviu muito rock, tinha esta sombra pairando sobre mim”, avalia. Mas pontua a admiração pela produção inglesa, a partir dos Beatles, que se mantém até hoje. “Desde o início e cada vez mais esses elementos vêm se fundindo na minha linguagem”, observa.
“Sou um pacote”, brinca Vitor Ramil, contando que não separa as diferentes atividades. Não esconde o gosto especial pelo trabalho de composição (“é como respirar, uma necessidade”). Dedicou-se, nos últimos anos, ao canto (“e por isso melhorei”), expressão à qual não dava bola na juventude. A sedução pela literatura é tão forte que na infância a família achava que este seria seu caminho. Tem publicado o romance Pequod e anuncia, para junho, outro, Satolep (Pelotas de trás para frente, mesmo nome do disco). “O meu dia-a-dia é mais voltado para a literatura do que para a música”. É crítico com relação à situação da música brasileira: “Ligo o rádio e só ouço coisas velhas ou coisas novas muito ruins. As particularidades dos temas brasileiros, dos lugares e das pessoas estão desaparecendo diante dos interesses do mercado e da mídia”, observa. Já lançou os discos Estrela (1981), A paixão de V segundo ele próprio (1984), Tango (1987), À beça (1996), Ramilonga – a estética do frio (1997), Tambong (2000), Longes (2004).
Fonte: http://www.divirta-se2.uai.com.br/agitos/interna_noticias.asp?codigo=3397
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