O Imperador romano Julio César adotou o calendário solar egípcio para prestigiar sua amada Cleópatra. Com Ano Novo e tudo. Sendo essa passagem de ano, desde aqueles primeiros tempos, sempre carregada de inquietações. Como se fôssemos atravessar uma ponte que separa o passado e o futuro. De um lado o que foi ou o que poderia ter sido; do outro, boas intenções ou grandiosas esperanças. Como se tudo que fizéssemos, naquele momento mágico da transição determinasse o que nos reservaria o novo ano.
Por conta disso, é festa cheia de superstições. Roupa de preferência branca (para ter paz). No bolso, uma moeda (para merecer fartura). Na beira-mar, pular 7 ondas (para vencer qualquer obstáculo).
Mas é na mesa que estas superstições estão mais presentes. Com pratos que, por toda parte, simbolizam saúde e bem-aventurança. Deve-se comer mel em forma de doces, ou acompanhando pratos salgados, para “adoçar o ano que vem chegando”. Grãos também, especialmente grão de bico e lentilha - que aumentam de volume durante o cozimento, trazendo prosperidade. E frutas secas - ameixa, damasco, passas, tâmaras - que representam uma vida longa. Tâmara é fruto da tamareira (Phoenix dictylifera), originária dos desertos do Oriente Médio e norte de África. Cresce nos oásis. E é considerada, por cristãos, judeus e mulçumanos, como a árvore da vida.
Recomenda-se, também, ficar só com o pé direito apoiado no chão e comer sete uvas, uma por vez. Ou sete grãos de romã. Sete como os anos de abundância, segundo a lenda egípcia. São duas frutas muito especiais. Uva (Vitis sp.) é origem do vinho, para a Igreja representa o próprio sangue do Salvador. E sobretudo romã (Punica granatum Linn.). Seus caroços, manda a tradição, devem ser chupados e guardados na carteira, até o ano seguinte. Originária do sul da Ásia, inicialmente foi cultivada pelos fenícios - para quem esse fruto da romãzeira simbolizava riqueza. Está presente nas mesas de Ano Novo e, também, no dia de Reis. Seu fruto é consumido ao natural, em saladas ou para decorar pratos; e na preparação de geléia. Dele se faz um xarope, o “grenadine”, base de muitos coquetéis. Também é usado como remédio: as flores, em infusão, tratam males da garganta; a polpa e a casca da raiz, como diurético e vermífugo; o chá feito das folhas, para lavar olhos inflamados. Ao Brasil, chegou no início do século XVI. Seu nome, lido de trás para frente, resulta na palavra amor. Inspirando o poema-palíndromo “Amor a Roma”, de Pedro Nava - “Amora, romã/ Amor a Roma/ Amor, aroma:/ Amor a Roma”.
Deve-se guardar distância dos animais que ciscam e jogam terra para trás - como peru e as demais aves, que representam retrocesso. E, mamíferos, só os briosos - como boi, carneiro, javali e sobretudo porco - que fuçam e jogam terra para frente. Por simbolizar força, progresso, virilidade. Esse porco é usado de várias formas - lombo, pernil, costeleta; também bacon, toucinho e sobretudo o presunto. Desde a antiguidade. Em “De Re Rústica”, Catão (234 -149 a.C.), ensinava a preparar: “corte-lhe a pata; coloque-a no sal; deixe por cinco dias; tire-a e pendure-a por dois dias ao ar livre…, e mais dois dias sobre a fumaça da casa…, e depois na despensa de carne. Banhando antes com vinagre, para afastar insetos”. Em “De Re Coquinária”, primeiro livro considerado de receita propriamente dito, Apicius (30 a.C.-37 d.C.) ensinava a cozinhar o pernil em água com especiarias, figos secos e vinho. Só a partir do século XVIII passou a ser, também, assado no forno.
Sem esquecer que não pode faltar Champagne na mesa de Ano Novo. Para celebrar o esplendor da vida. Uma lei francesa reservou esse nome aos vinhos ali produzidos - razão pela qual a bebida acaba ganhando outros nomes, dependendo do lugar. No resto da França é “mousseux”; na Alemanha, “sekt”; na Espanha, “cava”; na Inglaterra, “sparkling”, em Portugal e Brasil, “espumante”. No fundo, sempre a mesma bebida - “vinhos brancos borbulhantes, com dupla fermentação”, segundo Dr. Murilo Guimarães, um dos maiores especialistas em vinho do planeta.
Seja qual for a sua superstição, o importante é brindar com a família e os amigos.
Feliz Ano Novo
GELÉIA DE ROMÃ
INGREDIENTES:
½ kg de romã
300 gr de açúcar
¼ de colher de café de pimenta branca
PREPARO:
- Corte as romãs ao meio e esprema os grãos no espremedor de batatas, até obter 500 ml de suco.
- Despeje o suco em uma panela e junte o açúcar. Deixe ferver e diminua o fogo. Deixe até que reduza a 1/3 do conteúdo inicial.
- Junte a pimenta e alguns grãos inteiros de romã.
*É ótimo acompanhamento para o pernil de porco.
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